Por Guilherme Uchoa
Wlamir e Amaury foram verdadeiros divisores de água para o basquete tupiniquim. Ambos revolucionaram a forma de jogar a modalidade no País. Por nunca termos um grupo muito alto de jogadores, era preciso apostar na elasticidade, velocidade e qualidade técnica, características fundamentais dessa dupla para superar os ‘gigantes’ norte-americanos e soviéticos, reis do esporte da “bola laranja” naqueles anos.
Wlamir e Amaury foram verdadeiros divisores de água para o basquete tupiniquim. Ambos revolucionaram a forma de jogar a modalidade no País. Por nunca termos um grupo muito alto de jogadores, era preciso apostar na elasticidade, velocidade e qualidade técnica, características fundamentais dessa dupla para superar os ‘gigantes’ norte-americanos e soviéticos, reis do esporte da “bola laranja” naqueles anos.
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| Amaury destacava-se pela versatilidade |
Os
dois saíam muito do chão, eram flexíveis e capazes de fazer movimentos no ar
que pouquíssimos jogadores no mundo conseguiam. Tudo fruto de seu livre
trânsito por diversos outros esportes. Tanto Amaury Pasos quanto Wlamir Marques
levavam jeito em outras modalidades, o
que lhes valeu uma formação em termos de habilidade e movimentação pouco comum
no basquete.
Em sua infância, Amaury Pasos praticou natação
- que lhe deu força nos membros superiores -, salto em distância, que lhe
fortaleceu os membros inferiores, e vôlei, que contribuiu para a potência de
salto. Nessa modalidade, o sucesso de
Amaury foi tanto que lhe valeu convite para defender a seleção brasileira nas
Olimpíadas de Tóquio, em 1964.
Os
tempos, agora, são outros, mas Amaury Pasos mantém uma vida de vitórias. Ele
atende nossa reportagem em seu confortável apartamento no Jardim Paulista após
mais um dia de trabalho em sua empresa de peças de roupas femininas, herdada de
seu pai, e que conta atualmente com aproximadamente trezentas funcionárias.
Durante
quase duas horas, o ídolo recorda sua carreira e conquistas no basquete. Mas é
apresentando os diversos troféus de golfe de sua coleção, posicionados sobre
uma das mesas da aconchegante sala de estar, que comprova ainda manter a
versatilidade que o consagrou nas quadras.
Porém,
o começo de tudo tem início em 1941. Com apenas seis anos, o garoto Amaury,
brasileiro de nascimento, viu-se obrigado a rumar com seus pais para a
Argentina com o objetivo de ficarem próximos da família de sua mãe, em grave
estado de saúde. Pouco menos de um ano após a mudança, a genitora de Pasos viria
a falecer, mas o menino permaneceu em Buenos Aires, tendo toda sua formação no
país, até os 16 anos. Por estudar em um colégio interno, em uma cidade próxima
da capital argentina, Amaury passava todas as suas tardes praticando esportes.
Começou na natação, dando preferência pelas provas de 50, 100, 200 e 400 metros
livres.
Mas
a principal diversão do garoto brasileiro de Buenos Aires não estava na água.
Por considerar os treinos nas piscinas muito chatos e repetitivos, fugia para jogar
basquete com adultos. Detalhe: Amaury tinha menos de 14 anos quando começou a
enfrentar homens muito mais velhos.
Retornando
ao Brasil, já com 17 anos, o adolescente passou a frequentar o Clube de Regatas
Tietê, de São Paulo, que seu pai Antonio Pasos havia conhecido. Ali começou a
praticar vôlei na equipe juvenil da agremiação, chegando a ser campeão
paulista.
Entretanto,
o técnico da equipe de basquete do clube, Oscar Guaranha, fez questão de
trazê-lo de volta ao esporte da “bola laranja”, que havia ficado para trás nas
quadras argentinas entre homenzarrões e o então adolescente Amaury. O técnico
do Tietê foi além: acompanhava-o em treinos de dribles e controle de bola,
pouco se importando com os ponteiros do relógio. A prática não raramente só
terminava à meia- noite.
Com
a aprendizagem obtida, o desenvolvimento foi rápido e o jovem Amaury pulou dos
aspirantes para a equipe principal do Tietê. E dali abriu caminho para o
escrete canarinho. Em 1954, ano do segundo campeonato Mundial de basquete, no
Rio de Janeiro, Amâncio, então técnico do Palmeiras, indicou Amaury para o
comandante da seleção nacional Togo Renan Soares, o Kanela, para substituir
outro atleta – impossibilitado de atender à convocação - no grupo de 30
jogadores que iniciariam os preparativos para o torneio.
Logo
de cara, Pasos agradou o rigoroso técnico do Brasil, mantendo-se no elenco
mesmo após diversos cortes. Segundo Amaury, Kanela confessou anos mais tarde
que desde o primeiro treino já havia decidido que ele seria titular durante o
torneio.
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| Amaury em ação pela seleção brasileira |
E
foi justamente no momento em que se deparou com a titularidade nacional que o
garoto Amaury passou a levar sua carreira a sério. Até então, confessa, não
tinha noção de onde poderia chegar e inclusive intitulou-se como “filhinho de
papai”, já que, ao contrário da maioria dos jogadores, não trabalhava.
Nos
anos que se seguiram, o garoto de formação argentina nunca deixou de fazer
parte do quinteto inicial. Ao lado do parceiro Wlamir Marques, participou de
quatro mundiais, sempre ficando no pódio (dois títulos, um vice e um terceiro
lugar), e três Jogos Olímpicos, sendo duas vezes medalha de bronze, até deixar
a seleção em 1967.
Em
todas as competições em que entrava, o entrosamento da dupla era sempre a
principal arma brasileira. “Eu conhecia bem o Wlamir e já sabia quais eram suas
atitudes em determinadas circunstâncias. Às vezes, eu passava a bola sem ver, e
o cara estava lá. Não era que eu soubesse que ele estava lá, eu sentia”, recorda.
O
trabalho em equipe, mesmo depois de todos esses anos, ainda permanece. Quando
perguntado quem da dupla era melhor, a resposta está na ponta da língua de
Amaury: “até hoje eu tenho um convênio com ele. Quando perguntam para ele quem
foi melhor, ele diz que fui eu. E se perguntam para mim, digo que foi ele”,
revela.
E
mesmo os especialistas do basquete têm dificuldade em apontar qual dos dois
gigantes era o de maior destaque. O que importa eram as qualidades de cada um.
No caso de Amaury, a versatilidade, elasticidade e inteligência. Era eficiente
em todas as posições em que jogava.
Começou
como pivô, ainda no Mundial de 1954, atuou nas alas e fixou-se na armação, que
afirma ter sido sua posição preferida.
A
quantidade de prêmios individuais com que foi agraciado durante e depois de
encerrada a carreira são prova dessa versatilidade. Amaury Pasos foi eleito o
melhor jogador nos mundiais de 59 (atuando como pivô) e 63 (já como armador),
escolhido o 13º melhor esportista em uma pesquisa na Europa na década de 60, à
frente de Pelé, e, já em 2009, entrou para o Hall da Fama da FIBA (Federação
Internacional de Basquete), ao lado do norte-americano Bill Russel, um de seus
ídolos e maiores nomes do basquete dos Estados Unidos.
Em
1960, logo após a campanha do bronze nos Jogos de Roma, ele recebeu proposta de
um assistente técnico dos Estados Unidos para jogar na América do Norte, sem
nem ao menos passar pelos ‘tryouts’, período de treinamentos, que costumavam
impor como teste. O ex-armador recusou a proposta já que estava a poucos meses
de se casar.
Além
disso, Amaury lembra que, caso jogasse profissionalmente em solos norte-americanos
pela NBA, não poderia defender o Brasil na Olimpíada seguinte, em 1964. Uma
decisão que certamente teria mudado o rumo da história verde e amarela naquela
competição.
Quem
melhor resume o que Amaury Pasos representou para o basquete nacional é o
ex-pivô Antônio Sucar: “Amaury foi o jogador que vi jogar, que mais lembrava
Michael Jordan”, diz, citando a maior estrela da história do basquete mundial.
Anos
depois, Amaury decidiu-se pela aposentadoria, mas continuou ligado ao esporte.
Por ser formado em Educação Física e diplomado em todos os esportes que
praticou na infância (basquete, vôlei, natação e atletismo), atuou dois anos
como técnico do Monte Líbano e recebeu convite para comandar a seleção
brasileira - que foi recusado após desentendimento com Renato Brito Cunha,
auxiliar de Kanela nas principais conquistas brasileiras.
Mesmo
optando por comandar a empresa da família, Amaury faz questão de manter contato
com seus antigos companheiros. Em 2009, por razão dos 50 anos da conquista do
primeiro título mundial, em 1959, realizou uma comemoração entre os jogadores
em um sofisticado restaurante paulista. Para este ano, pretende repetir a
celebração, desta vez em lembrança ao meio século do bi mundial erguido no Rio
de Janeiro.
Tais
iniciativas só poderiam mesmo partir desse gigante do basquete brasileiro.
Amaury Pasos sempre foi um jogador completo, diferenciado e responsável por tomar
a frente nas partidas. A mania persiste até os dias de hoje, afinal, líder nas
quadras, líder fora delas também.
Fotos: Divulgação/ CBB
Fotos: Divulgação/ CBB


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