domingo, 26 de maio de 2013

Wlamir Marques, o menino de São Vicente que ganhou o mundo

Por Guilherme Uchoa

O garoto que na infância pulava o muro de sua casa e caia diretamente no ginásio do clube Tumiaru, de São Vicente, para brincar de basquete com amigos usando uma bolinha de tênis, rapidamente cresceu e viu que poderia ter destaque no esporte.

 Wlamir erguendo taça do mundial de 1963
Wlamir Marques, que morava na cidade do litoral paulista, rumou para o interior do Estado, em Piracicaba, onde, após impressionar os dirigentes em uma edição dos Jogos Abertos, e sob as promessas de moradia, alimentação, auxílio financeiro e escolar, começou a jogar pelo XV de Novembro local – uma das potências de São Paulo na modalidade, naquela época.

Os estudos, confessa Wlamir, ficavam em segundo plano. A consequência imediata, o boletim cada vez mais manchado de vermelho. Mas nas quadras, o ‘alemãozinho’ – como viria a ser chamado constantemente pelo técnico Kanela em seus anos de seleção brasileira – tinha destaque.

De tanto ‘voar’ em quadra, recebeu outro apelido: ‘Disco Voador’. E para orgulho da população da cidade, ainda havia o complemento ‘de Piracicaba’.  Já defendendo as cores do Brasil em torneios internacionais, ganhou outro rótulo. Sua forma fulminante de jogar – veloz, saindo muito do chão e quase sempre liderando as pontuações individuais das partidas – aliada à beleza destacada pelo público feminino (diziam que tinha pinta de galã), lhe renderam mais uma alcunha, esta de autoria da imprensa carioca. “Diabo Loiro”.

A exemplo de Amaury Pasos, seu grande companheiro nas conquistas brasileiras, Wlamir teve sua iniciação esportiva direcionada em diversas modalidades. Ainda morando no litoral paulista, praticava natação, pois sua mãe queria. Era goleiro de futebol, em função do pai. Praticava atletismo porque um irmão era professor de Educação Física. E jogava vôlei, porque seu tio era técnico.

O único esporte que praticava por puro prazer era o basquetebol. Com 13, quase 14 anos, mudou-se para casa cujo muro era a porta a ser escalada para o basquete, na Rua Expedicionário Vicentino.  “Eu pulei o muro, cai na quadra do clube e até hoje nunca mais saí dessa quadra”, recorda o ex-jogador durante entrevista concedida à reportagem na área de lazer de seu prédio, em Perdizes, São Paulo, em um belo dia ensolarado, do mês de abril.

Sentado ao lado da piscina do condomínio, e com o cenário de uma quadra de basquete de piso duro ao fundo, o hoje comentarista esportivo dos canais ESPN relembra a carreira vitoriosa e as principais conquistas pela seleção principal do Brasil.

Ele lembra que, em 1954, começou a treinar com o time de Kanela para o Mundial que o Brasil sediaria. E o primeiro treino caiu na exata data em que completava 17 anos: 16 de julho. Ao final deste treino – lembra -, o comandante Kanela comprou um bolo para comemorar o momento. Ao todo, foram 18 anos de seleção nacional, na qual sempre foi titular.

O Diabo Loiro relata que o primeiro campeonato mundial que jogaria, em 1954, seria realizado em São Paulo, em comemoração aos 400 anos da cidade. Entretanto, a queda de parte da cúpula do ginásio do Ibirapuera impediu a realização dos jogos, que foram transferidos para o Maracanazinho – ainda em obras. 

“O ginásio estava com pregos e tábuas de madeiras espalhadas pelo local. Colocaram um piso de madeira, protegeram as pessoas de alguns objetos e assim foi disputado o torneio. Permanentemente lotado”, conta.

Mas apesar da fama conquistada no esporte, era preciso trabalhar para sobreviver. Em Piracicaba, depois de já estar casado, Wlamir pediu auxilio para um diretor de seu clube. Depois de alguns contatos com políticos no Rio, o ‘alemão’ conseguiu trabalho como postalista dos Correios. O dinheiro do basquete servia apenas como bico. Mesmo no Corinthians, exercia funções paralelas, pois já tinha esposa e dois filhos. Os estudos também foram deixados de lado por falta de tempo: Wlamir não comparecia às aulas por passar muito tempo com a seleção brasileira.

Mas, o tempo dedicado ao escrete canarinho teve lá seu retorno. Em 1963, Wlamir Marques foi um dos pilares – e maior pontuador verde e amarelo – durante a campanha que rendeu ao Brasil seu segundo título mundial. Ao todo, somou 108 pontos em seis partidas, atingindo média de 18 pontos em cada confronto. Ele inclusive ficou dois pontos à frente de Amaury.

Wlamir Marques foi o cestinha brasileiro no mundial do Rio, em 1963
“Minha maior emoção foi sem dúvida no Mundial do Rio, em 63, no Maracanãzinho lotado, quando ganhamos de forma invicta. Eu era o capitão do time e tinha gente sentada na linha da quadra. Quando ganhamos o último jogo, teve aquela invasão e quase fiquei pelado em quadra”, afirma. “Éramos credenciados a ganhar, embora achássemos que fosse difícil, já que uma semana antes do início do mundial havíamos perdidos para os Estados Unidos no Pan-americano de São Paulo, no ginásio do Ibirapuera”, conta, lembrando-se do torneio em que os dois países se enfrentaram antes de rumarem para a Cidade Maravilhosa. “De lá, as duas seleções foram pro Rio de Janeiro, só que dessa vez nós vencemos”, celebra.

Por sempre jogar com os mesmos companheiros, seja em seus clubes ou pela seleção canarinha, Wlamir desenvolveu um nível de entrosamento que lhe permitia realizar jogadas insólitas para o basquete da época.

“O Ubiratan saltava muito; então, eu jogava a bola pertinho do aro e ele já ‘cravava’. Fazia isso com ele no Corinthians, onde jogamos durante oito anos. Às vezes, eu ficava na lateral e ele na linha do lance livre; aí, tinha algum sinalzinho e eu jogava pra ele perto do aro e ele enterrava. Não era sempre porque os adversários ficavam prevenidos, mas algumas vezes a gente fazia”, conta o craque, explicando como fazia a “ponte aérea” com o pivô da seleção.


A analogia feita por Wlamir Marques no começo desde texto se explica. Quando decidiu pular o muro de sua casa para brincar de basquete, seu destino mudou. O esporte entrou em sua vida, tornou-se um companheiro inseparável e nunca mais o deixou. Exatamente como ele nunca mais deixou, em sua mente, a pacata quadra do clube vicentino onde tudo começou.

Fotos: Reprodução e divulgação/ CBB

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