domingo, 26 de maio de 2013

Em quadra, as estrelas. Fora, o comando de rédeas curtas

Por Guilherme Uchoa

Um técnico rigoroso, autoritário, respeitado e que sabia, mais do que tática ou esquemas de jogo, motivar e tirar o melhor de cada atleta em quadra. Vencedor não só no basquete, mas em outras modalidades. Por fim, um treinador que ainda se dava ao luxo de levar algumas de suas contestadas “crias” cariocas para as competições internacionais.
Kanela durante comemoração do bimundial

Esse é o retrato de Togo Renan Soares, o Kanela, comandante da seleção brasileira de basquete em seu período mais vitorioso, e um dos principais responsáveis pela conquista do bicampeonato mundial de 1963. Caso ainda estivesse vivo, o treinador – nascido em João Pessoa, em 1906 - comemoraria mais um aniversário nesta quarta-feira (22).

As facetas de Kanela variavam. Para alguns jogadores, era simpático e brincava. Fazia elogios pomposos. A outros, era indiferente, conversava pouco e, quando falava, geralmente era para criticar. 

“O Kanela”, segundo lembra o ex-pivô Luiz Cláudio Menon, “era um técnico que motivava quem ele queria. Era extremamente esperto e tinha uma visão de quadra como poucos”, conta.

“No convívio, ele percebia que alguns atletas precisavam de bajulação para render; então, ele chegava perto do cara, dava um peteleco e dizia ‘Piiim, você está um cristal puro! O maior arremesso da América do Sul!’”, recorda Menon. “Havia outros que se motivavam por um tranco; então, ele falava ‘ploft. Você está uma bosta! Não sai do chão, não arremessa, não marca, não faz porra nenhuma! ’”, relembra, aos risos.

Cada um dos dois tipos de atleta respondia com produção. Os que precisassem de bajulação, ficavam empolgados. Enquanto os outros ficavam irritados com as provocações e jogavam com mais empenho, como que para provar seu valor a Kanela.

A parte técnica e tática das partidas, Togo Renan deixava a cargo de assistentes que levava consigo para os campeonatos. Entre eles, Renato Brito Cunha e Moacyr Daiuto foram os mais requisitados. A sua parte era de motivação, de ‘tirar leite de pedra’.

Durante os períodos de treinamento para as principais competições, também tinha seus métodos para preparação da equipe. Era comum colocar os selecionáveis em regime de internato em locais isolados, como a Ilha das Enxadas ou o hotel Paineiras, no Rio de Janeiro. Nestes períodos, treinavam duas vezes ao dia e tinham suas saídas controladas pelo comandante.

Além disso, Kanela não demorava em decidir seus titulares. Na verdade, mesmo durante longos períodos de preparação, o paraibano já escolhia desde o princípio qual seria seu quinteto titular. Mesmo durante as partidas, fazia poucas alterações, usando no máximo oito dos 12 jogadores disponíveis.

A definição do time titular com tanta antecedência, de acordo com os seus ex-comandados, não afetava o ambiente da seleção. Todos sabiam que, apesar de convocar alguns jogadores contestáveis, sempre colocava em quadra o que o País tinha de melhor.

Da esquadra principal do Brasil, duas vagas estavam sempre garantidas, já que o rigoroso treinador tinha em Amaury Pasos e Wlamir Marques os pilares fundamentais de seus elencos. Dentre os jogadores, apenas a dupla tinha autonomia para tentar em quadra jogadas diferentes das combinadas por Kanela fora dela.

Também não era raro ver o técnico brigando e discutindo com arbitragem. Em um dos momentos mais importantes do basquete nacional – a partida do Mundial de 63, ante a União Soviética, como lembra Menon, Kanela chegou a agredir o juiz.

Tudo, porém, orquestrado. “No Mundial de 63, contra os norte-americanos, ele foi expulso porque o juiz apitou qualquer coisa, ele entrou em quadra e deu lhe um soco”, conta. “Mas ele fazia isso de propósito, estava programado, porque assim o jogo era paralisado, dava uma confusão e a torcida inflamava. Começava a aumentar a pressão em cima do juiz”, explica o pivô, que jogou em três partidas da campanha do bi mundial.

Como Kanela comandava o Flamengo, no Rio de Janeiro, e os grandes nomes do esporte estavam concentrados em clubes paulistas, não era raro o técnico levar alguns de seus jogadores do Rio para as competições. “Ele geralmente levava uns dois ‘peixinhos’ dele, por último, do Flamengo”, ressalta Antônio Sucar, também integrante da geração dourada.

O ex-ala Jatyr Schall faz coro a seu colega. “O Kanela levava outros em detrimento de alguns. 80% dos jogadores eram merecedores e 20% tinham alguma coisa para que fossem levados. Ou porque eram do clube dele, ou porque eram indicados”, revela.

O ex-armador Mosquito vai além: dá nome aos bois. Segundo ele, Zezinho e Fernando Brobró não mereceriam estar entre os tops 12 do País, mas eram convocados com frequência pela afinidade que tinham com Togo Renan. Um dia o Kanela disse que eu seria cortado porque ‘entre dois paulistas e dois cariocas, prefiro os dois cariocas que eu conheço’”, conta.

Outro jogador que atuava no Rio, o Paulista (que era assim chamado justamente por ser de São Paulo e jogar na Cidade Maravilhosa), também era chamado com frequência pelo técnico, mesmo com os convocados de São Paulo tirando sarro dele. Menon, inclusive, conta em tom de gozação que ele só foi para o Mundial de 1963 para carregar as bolas de basquete da equipe.

Apesar das maneiras distintas de agir com cada atleta e das rixas que às vezes criava, o treinador – decacampeão carioca pelo Flamengo – era sempre respeitado por seus atletas. “Jogávamos para satisfazer o Kanela. Não jogávamos por nos próprios ou para o público, era pro Kanela. Ele fazia isso com o jogador: fazíamos questão de provar para ele que éramos bons”, conta Amaury Pasos.

Seus métodos de comando estiveram presentes em outros esportes. Foi diversas vezes campeão amador de futebol e treinou equipes de polo aquático, ambos pelo Botafogo. Entre seus pupilos do polo estava João Havelange, que anos mais tarde viria a se tornar presidente da FIFA, órgão máximo do futebol mundial. No esporte da “bola laranja”, além da seleção brasileira, comandou o Flamengo e o time das Forças Aéreas nacional.


Pela seleção canarinha de basquete, Togo Renan Soares, que recebeu a alcunha de “Kanela” em razão das canelas finas, participou de 103 partidas em 14 competições oficiais. Deste total, venceu 87 e perdeu apenas 16, que lhe rendeu um aproveitamento de 84,4% de resultados positivos.

Foto: divulgação/ CBB

Nenhum comentário:

Postar um comentário