Por Guilherme Uchoa
Um técnico rigoroso,
autoritário, respeitado e que sabia, mais do que tática ou esquemas de jogo,
motivar e tirar o melhor de cada atleta em quadra. Vencedor não só no basquete,
mas em outras modalidades. Por fim, um treinador que ainda se dava ao luxo de levar
algumas de suas contestadas “crias” cariocas para as competições
internacionais.
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| Kanela durante comemoração do bimundial |
Esse é o retrato de Togo
Renan Soares, o Kanela, comandante da seleção brasileira de basquete em seu
período mais vitorioso, e um dos principais responsáveis pela conquista do
bicampeonato mundial de 1963. Caso ainda estivesse vivo, o treinador – nascido
em João Pessoa, em 1906 - comemoraria mais um aniversário nesta quarta-feira
(22).
As facetas de Kanela
variavam. Para alguns jogadores, era simpático e brincava. Fazia elogios
pomposos. A outros, era indiferente, conversava pouco e, quando falava,
geralmente era para criticar.
“O Kanela”, segundo lembra o
ex-pivô Luiz Cláudio Menon, “era um técnico que motivava quem ele queria. Era
extremamente esperto e tinha uma visão de quadra como poucos”, conta.
“No convívio, ele percebia
que alguns atletas precisavam de bajulação para render; então, ele chegava
perto do cara, dava um peteleco e dizia ‘Piiim, você está um cristal puro! O
maior arremesso da América do Sul!’”, recorda Menon. “Havia outros que se
motivavam por um tranco; então, ele falava ‘ploft. Você está uma bosta! Não sai
do chão, não arremessa, não marca, não faz porra nenhuma! ’”, relembra, aos
risos.
Cada um dos dois tipos de
atleta respondia com produção. Os que precisassem de bajulação, ficavam
empolgados. Enquanto os outros ficavam irritados com as provocações e jogavam
com mais empenho, como que para provar seu valor a Kanela.
A parte técnica e tática das
partidas, Togo Renan deixava a cargo de assistentes que levava consigo para os
campeonatos. Entre eles, Renato Brito Cunha e Moacyr Daiuto foram os mais requisitados. A sua parte era de motivação, de
‘tirar leite de pedra’.
Durante os períodos de
treinamento para as principais competições, também tinha seus métodos para
preparação da equipe. Era comum colocar os selecionáveis em regime de internato
em locais isolados, como a Ilha das Enxadas ou o hotel Paineiras, no Rio de
Janeiro. Nestes períodos, treinavam duas vezes ao dia e tinham suas saídas
controladas pelo comandante.
Além disso, Kanela não
demorava em decidir seus titulares. Na verdade, mesmo durante longos períodos
de preparação, o paraibano já escolhia desde o princípio qual seria seu
quinteto titular. Mesmo durante as partidas, fazia poucas alterações, usando no
máximo oito dos 12 jogadores disponíveis.
A definição do time titular
com tanta antecedência, de acordo com os seus ex-comandados, não afetava o
ambiente da seleção. Todos sabiam que, apesar de convocar alguns jogadores
contestáveis, sempre colocava em quadra o que o País tinha de melhor.
Da esquadra principal do
Brasil, duas vagas estavam sempre garantidas, já que o rigoroso treinador tinha
em Amaury Pasos e Wlamir Marques os pilares fundamentais de seus elencos.
Dentre os jogadores, apenas a dupla tinha autonomia para tentar em quadra
jogadas diferentes das combinadas por Kanela fora dela.
Também não era raro ver o
técnico brigando e discutindo com arbitragem. Em um dos momentos mais
importantes do basquete nacional – a partida do Mundial de 63, ante a União
Soviética, como lembra Menon, Kanela chegou a agredir o juiz.
Tudo, porém, orquestrado.
“No Mundial de 63, contra os norte-americanos, ele foi expulso porque o juiz
apitou qualquer coisa, ele entrou em quadra e deu lhe um soco”, conta. “Mas ele
fazia isso de propósito, estava programado, porque assim o jogo era paralisado,
dava uma confusão e a torcida inflamava. Começava a aumentar a pressão em cima
do juiz”, explica o pivô, que jogou
em três partidas da campanha do bi mundial.
Como Kanela comandava o
Flamengo, no Rio de Janeiro, e os grandes nomes do esporte estavam concentrados
em clubes paulistas, não era raro o técnico levar alguns de seus jogadores do
Rio para as competições. “Ele geralmente levava uns dois ‘peixinhos’ dele, por último,
do Flamengo”, ressalta Antônio Sucar, também integrante da geração dourada.
O ex-ala Jatyr Schall faz
coro a seu colega. “O Kanela levava outros em detrimento de alguns. 80% dos
jogadores eram merecedores e 20% tinham alguma coisa para que fossem levados.
Ou porque eram do clube dele, ou porque eram indicados”, revela.
O ex-armador Mosquito vai
além: dá nome aos bois. Segundo ele, Zezinho e Fernando Brobró não mereceriam estar entre os tops 12
do País, mas eram convocados com frequência pela afinidade que tinham com Togo
Renan. “Um dia o Kanela disse que eu seria cortado porque ‘entre dois paulistas e
dois cariocas, prefiro os dois cariocas que eu conheço’”, conta.
Outro jogador que atuava no
Rio, o Paulista (que era assim chamado justamente por ser de São Paulo e jogar
na Cidade Maravilhosa), também era chamado com frequência pelo técnico, mesmo
com os convocados de São Paulo tirando sarro dele. Menon, inclusive, conta em
tom de gozação que ele só foi para o Mundial de 1963 para carregar as bolas de
basquete da equipe.
Apesar das maneiras
distintas de agir com cada atleta e das rixas que às vezes criava, o treinador
– decacampeão carioca pelo Flamengo – era sempre respeitado por seus atletas. “Jogávamos
para satisfazer o Kanela. Não jogávamos por nos próprios ou para o público, era
pro Kanela. Ele fazia isso com o jogador: fazíamos questão de provar para ele
que éramos bons”, conta Amaury
Pasos.
Seus métodos de comando
estiveram presentes em outros esportes. Foi diversas vezes campeão amador de
futebol e treinou equipes de polo aquático, ambos pelo Botafogo. Entre seus
pupilos do polo estava João Havelange, que anos mais tarde viria a se tornar
presidente da FIFA, órgão máximo do futebol mundial. No esporte da “bola
laranja”, além da seleção brasileira, comandou o Flamengo e o time das Forças Aéreas
nacional.
Pela seleção canarinha de
basquete, Togo Renan Soares, que recebeu a alcunha de “Kanela” em razão das
canelas finas, participou de 103 partidas em 14 competições oficiais. Deste
total, venceu 87 e perdeu apenas 16, que lhe rendeu um aproveitamento de 84,4%
de resultados positivos.
Foto: divulgação/ CBB

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